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O Arroto de Caetano

Em reaçao à critica de Caetano Veloso ao presidente Lula.

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Ninguém pode subestimar o talento de Caetano Veloso. Mas creio que ele deveria respeitar-se falando menos.

Sofremos todos com os problemas do Brasil, mas Caetano deveria saber que um presidente legitimamente eleito  merece, pelo menos publicamente, um tratamento diferente daquele reservado a um bate-boca no botequim.

Esse tipo de ranzinzice "caetaniana" é rara entre seus pares, talvez porque compreendam que, a partir de uma certa notoriedade, não se tem mais direito à polemicazinha macunaimica que não conduz a nada a nao ser chamar a atenção sobre si mesmo. Gilberto Gil, por exemplo, não sofre desses efluxos hormonais, e tem uma sofisticaçao que escapa à pseuda-autenticidade de Caetano.

Ressalte-se que Caetano não escolhe adjetivar o chefe da boca de fumo, nem o deputadozinho ladrão...Não!! Ele prefere atirar diretamente no presidente da Republica: primeiro porque é mais tropicalisticamente rocambolesco; depois porque muito menos perigoso!, assegurando-lhe, na platitude da imprensa tupiniquim, seus dois ou três dias de “centro das atenções”. Caetano  transvestido no agitador-intelectual-polêmico, ainda que suas fanfarronices, quase sempre, produzam quase nada!

Suas criticas mais parecem o arroto de uma elite enfastiada.


antonio veronese

 

Antonio Veronese-Artigos Publicados 

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Antonio Veronese- Visage 11


Antonio Veronese
Cheese, Ham an Egg Antonio Veronese- O Globo, 20/05/01

Fico observando a discussão sobre a Lei Aldo Rebelo, e sua repercussao. Ela é acusada de anacronia, de xenofobia, e de outras ‘ias’ mais. No entanto, chega uma hora em que a questão da identidade impõe-se; afinal de contas, a língua é a própria pátria!

Disto bem sabe a França que, há décadas, legisla em defesa do francês e da francofonia. No Brasil a anglicização galopante do português perverte e desnatura a mais bela das línguas latinas (e perdoem aqui a jactância luso-brasileira). Decreta ainda, por desuso e ignorância, a morte de palavras belíssimas como, por exemplo, ‘cancioneiro’, substituída, infelizmente, pelo malfadado ’song-book’ como já reclamara o mestre Antonio Callado. Chega a ser engraçado que uma compilação da obra africano-carioquissima de Cartola, seja chamada de song-book pelos próprios brasileiros, como aponta Marcos de Castro no recomendavel livro ‘O caos na ortografia’. Os portugueses, com certeza, não cometeriam tamanha impropriedade.

Mas, fazendo cá comigo essas ilações, acabei testemunhando algo que bem ilustra a questão. Dia desses, entrei numa dessas lanchonetes de Copacabana com pomposos nomes em inglês na fachada. Queria comer alguma coisa leve e minha opção estava lá no painel assim descrita: Cheese, Ham and Egg.

 

Chamei o garoto que estava servindo e, fiel à última flor do Lácio, pedi: ‘ô rapaz, me vê aí um Queijo, Presunto e Ovo!

O menino reagiu como se eu em sânscrito falasse. Diante de sua perplexidade,  insisti eu na boa língua de Saramago:  olha, eu filho, eu quero  um Queijo, Presunto e Ovo, certo? Fez-se uma pausa desconfortável...o rapaz, na tentativa de assumir o controle da situação, sentenciou: olha moço, aqui  só tem o que está escrito ali, ó... - apontando num gento largo  o imenso cardápio afixado à parede, que mais parecia um manuscrito shakespeariano que uma lista de guloseimas.

 

Eu, sem ceder ao braço-de-ferro, insistia no  meu bom portuguesinho:

" exatamente, meu filho, e é mesmo por estar ali no cardápio que estou pedindo: quero um Queijo, Presunto e Ovo! Em vão!

Uma senhora do meu lado, atrasada pelo tempo que eu tomava ao rapaz, lançou-me um olhar furibundo, colocando em perigo a minha cruzada filológica:  "ô muleque, o que ele quer, é um Cheese, Ham and Egg!!’, e repetiu, enfatizando cada sílaba, num inglês digno de Connecticut: Cheese,Ham and Egg, pôrra!

Severino então, estampou no simpatico rosto nortista um sorriso aliviado:

‘Ah, entendi, doutor... É pra já! E em voz alta comandou sem mais delongas ao cozinheiro no fundo do corredor: Tião, salta ligeirinho um Cheese, Ham and Egg aqui prô my brother!!!!’ 

 

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Sérgio Brito , porque somos feitos da mesma matèria que os sonhos

 


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Somente hoje, aqui na Europa, soube da morte do grande sacerdote do teatro brasileiro, Sergio Britto. Personalidade, influência, carreira, repertorio, paixao, destino... Sérgio era um entusiasta ( o Teatro é o mais antigo dos moribundos, dizia). Bastavam poucos minutos de papo para que  aquele homem de barba e cabelo brancos se transformasse num radioso menino. Sérgio jamais envelheceu!

Por volta de 2001, ele veio à minha casa no Rio entrevistar-me para o programa Arte com Sérgio Brito, na TVE. Depois de 5 minutos de bate papo,  eu não sabia mais quem estava sendo entrevistado, ele ou eu. Ele conhecia profundamente pintura, opera,  ballet,  musica... isso sem falar da sua trajetória notável na dramaturgia. Sérgio sabia tudo, conversava sobre tudo, um verdadeiro "uomo universale"!  Foi, sem a menor sombra de duvida, a melhor entrevista da minha vida!!

Alguns anos antes ele veio ver minha exposiçao no Teatro dos Quatro, no Rio. Guardo com grande carinho o elogio de Sérgio, quando nem eu mesmo acreditava em mim. Foi a primeira pessoa que me pôs a mão no ombro e perguntou: "foi você que fez isso?! ... A partir de Sérgio eu me disse: meu Deus, talvez eu seja mesmo um pintor..." Devo isso a ele, jamais vou me esquecer!!!

Outras caracteristicas de Sérgio eram a  compaixão e a humildade.   Uma vez ele me convidou para acompanhar os ensaios de um musical sobre os "tempos do radio", ali  naquele teatro da Fonte da Saudade. Cheguei,  sentei-me no fundo da sala e pude observá-lo em pleno exercicio de dirigir: uma troca afetuosa, densa e sofisticadissima com o elenco, um momento em que Sérgio se  revelava por inteiro.

Em outra ocasião, ele ensaiava, dirigido pelo grande Domingos de Oliveira, o espetáculo Sérgio 80, no pequenino teatro na galeria da Cândido Mendes. Pela manha ele me ligou: vem ver o ensaio. Cheguei um pouco atrasado e sentei-me no fundo da minuscula arena. Alem de Domingos e Sérgio, só eu na escura plateia! Procurei passar o mais desapercebidamente  possível para não incomodar o trabalho dos dois. Qual foi minha surpresa quando, depois de meia hora, Sérgio vira a cabeça pra trás e pergunta-me a seco: Antonio, ta' bom ou ta' ruim?! Imaginem eu chamado a dar pitaco numa direção de Domingos de Oliveira!!

Em 2004, Sérgio veio a meu casamento e, alem de  destacar-se pela discreçao e elegância, fez, ao partir, um comentário inesquecível: " bonito teu casamento, parecia uma peça de  teatro..."

Por isso e tanto mais, dói saber que Sérgio partiu... sobretudo porque não pude visitá-lo nos seus últimos meses, quando a doença agravou-se. Mas sei que, onde quer que esteja, ele já esta' ensaiando um novo espetáculo...    

Sérgio foi  a prova definitiva de que " we are such stuff as dreams are made on ".

 

antonio veronese

 

 

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Antonio Veronese
REFERENDUN VENDA DE ARMAS DE FOGO NO BRASIL

Ganhou o olho por olho…

Sobre o resultado do referendo sobre venda de Armas de Fogo no Brasil-

Outubro 2005

Ganhou o olho por olho, o dente por dente. Ganhou o direito de combater a violência com a violência. Ganhou a possibilidade de sujar as mãos de sangue, como os algozes. Ganhou a mentalidade tosca, anti-republicana, que defende que -uma vez ineficiente a polícia- deva a sociedade ela mesma agir no seu policiamento.

 

Venceu o raciocínio simplório de que armas de fogo são essenciais à segurança dos cidadãos, ainda que, armada até os dentes, nossa sociedade não consiga livrar-se do vergonhoso recorde mundial de assassinatos, em números proporcionais e absolutos. Num país onde 12 pessoas são assassinadas a cada hora, ganhou o direito de continuar matando! Os brasileiros exigem, como John Wayne, um coldre com um 45 na cintura, o que permitirá ao Brasil do século XXI “ascender” ao nível civilizatório do oeste americano do século XVII.

Estou profundamente decepcionado com o resultado. Que oportunidade perdemos!!! A proibição das armas não seria, evidentemente, a solução de todos nossos problemas, mas proporia um novo tempo, uma nova mentalidade para as gerações futuras. Crianças a serem formadas com o novo valor, firmado pela lei e pela escola, de que a arma de fogo fôra um objeto do passado, da brutalização nas relações humanas.

 


antonio veronese
www.antonioveronese.over-blog.com
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Antonio Veronese  O Globo 2002

 

Os Quatro Pirralhos

São quatro pirralhos, correria destrambelhada debaixo da chuva fina. Quatro brasileirinhos cascas-grossas, filhinhos de Deus e da puta, num ziguezague suicida em meio à roleta russa dos carros em movimentto:

-Pega, pega…

O que vem na frente,  mais graudão dos quatro, tendo já assegurado o produto do roubo nas profundezas cárneas da cueca, estampa no rosto uma ‘overdose’ de adrenalina: olhos que saltam, caricaturesca Beth Daves em agonia. Logo atrás, voando baixo, vem um mais escurinho cobrindo a retaguarda: bichinho miúdo, cabeça lisa e canelas finas, dentes de alemão apesar da infância de pouco leite, e a cabeça que gira num frenesi que faz saltar
os tendões do pescoço como um beque central no sufoco da pequena área.

Por últimos, retardados na carreira, vêm os dois mais minguadinhos -’physic-du-rôle do miserê”-  destrambelhamento de rês-desgarrada,  pernas sangrando contra o aço dos pára-choques,  pés descalços no malabarismo do asfalto escorregadio, tentando – no limite dos pulmões- acompanhar os proeiros na cavalgada infernal...

-Pega, pega os filhos da puta! –grita o cidadão engravatado arfando pelas ventas, carro abandonado no meio da rua pra engrossar ao corso ensandecido dos perseguidores. 

 -Peeega!- repete em coro a multidão, extasiada com o circo de horrores que se instala e quebra a rotina sem graça da tarde domingueira.

Lá embaixo, na esquina, um guarda de trânsito, alertado pelo banzeiro, saca enorme cacetete e prepara o cerco. A platéia congela em surda expectativa…O maior de todos, ignorando a autoridade constituída, mantém aceleração e curso inalterados até que, na iminência do bote do final, já nas ventas do parrudo!, dá um salto de acrobata e, desdenhando a lei da gravidade como um personagem de Chagal, passa flutuando por sobre os carros travados no congestionamento, desaparecendo sem deixar vestígios na dobra da esquina do canal.


-Esse já era!!-, vaticina o apontador do bicho, sem conter o sorriso de satisfação.

O segundo neguinho, o que vem na cobertura, fiado na rota traçada pelo proeiro, acaba caindo na mesma armadilha: o estreito corredor do matadouro entre os ônibus e o paredão. -Esse não escapa!! -grita a multidão, babando seu sadismo- mas o moleque, que traz nos calcanhares, em fúria, o motorista “ desapropriado” de sua carteira, não desacelera seu curso suicida, parecendo desdenhar as chagas do seu destino.

-Pega, pega esse, porra!- , grita a grã-fina do reluzente carro importado enebriada de sua histeria.


Uma “ matilha” de marmanjos vitaminados, sorvendo "in-extasis" o coquetel de adrenalinas, aperta o cerco, e a Lagoa-Barra encena, em todo seu esplendor, uma inesperada chasse à courre...

Na esquina do canal, armando o bote final, um oficial de polícia abre braços e pernas como um goleiro na hora do pênalti. A multidão conta em uníssono os metros que faltam para o previsível desfecho: -dez,…oito,… cinco,… três..; O motorista, que vem colado ao "meliante", avança a perna de capoeirista competente, desferindo um violento rabo-de-arraia nas canelas tísicas do velocista. O franguinho desequilibra, faz que cai mas não cai, bambeia mas se segura e, puxando fundo pelo oxigênio, ginga o corpo ensaboado de suor passando, escorregadio como sabonete,  entre as pernas do policial, deixando milícia e motorista estatelados no chão após violento choque frontal…Garrinchinha brasileiro! que dobra  e desaparece, prá nunca mais, na mesma esquina do canal.O apontador do bicho não resiste à satisfaçao e soca o ar com um euforico -puta-que-pariu!!-

Mas ainda restam dois, Deus do céu!!, os dois mais miudinhos da rabeira, tentando escapar no labirinto do congestionamento.

-Tem mais dois!!- aponta, aos berros,  a mulher com metade do corpo já  fora do carro. A multidão gira as cabeças numa coreografia de Rolland Garros… -Lá atrás, tem mais dois!!-, repete a plateia arrebatada, enquanto o guarda, tentando recompor-se da queda espetacular, reassume a operação de guerra aos gritos :

- Pega, pega os ‘lazarento’, não deixa escapar!!

 

Minduin, sararazinho desdentado, sete aninhos de sobrevivência e sete vidas de exclusao,  entra zunindo  no curral estreito dos automóveis. Cercado, escorrega vaselinado por debaixo do lotação dando de cara, na calçada oposta, com o menorzinho e único branquela dos quatro, Dentinho,  que, sem mais forças pra correr, começa a chorar um choro fundo, desesperado, o pavor estampado nos olhos miúdos de criança:

-...espera eu, espera eu, Minduim-, implora . Não me deixa eu aqui!!!

Minduim, sensível ao choro do pequenino, vacila em sua solidariedade, atraza o passo e estica a mão solidária... mas perde um tempo precioso ! O cerco se fecha, não há mais como escapar…Num último e desesperado recurso, atiram-se os dois nas águas fecais do canal da Visconde, acoutando-se sob a velha ponte de pedra.

O cavalaria dos perseguidores, vitoriosa,  cerca pelo outro lado e faz o paredão. Fim da linha! A andrajosa parelha senta-se, derrotada,  na água fria, os ossos das costelas abrindo o fole da sanfona do peito como na agonia da consumpção. Dentinho chora convulsivamente, mas Minduim, medo e revolta condensados em sua valentia, encara a multidão :

-Bate não, filha da puta- ameaça o pequenino, valente como um sagüí encurralado. -Tá me segurando por quê, filho da puta? Que foi que eu fiz?

-Roubou minha carteira-, grita espumando pelas ventas o motorista que, a muito custo, é contido em sua fúria pelo policial.

-Eu te roubei!? Eu não  roubei nada não. Quem te roubou foi Tião, o negão qu´ ”ocêis’ deixaram escapar. Eu num roubei ninguém, não!!-, repete o pequenino, engrossando a voz ante o silêncio da platéia paralisada.

-Cadê, cadê tua carteira?, continua ele. Comigo é que num tá! Olha aqui, pode ‘arrevistá’, grita o moleque, desvencilhando-se num arroubo da própria camisa presa nas mãos do grandalhão. Olha ai,  eu num roubei nada não! Eu tô limpo!! e me deixa eu, filho-da-puta!!!- 

-Mas, então, por que tu corria, pivete?- pergunta-lhe o policial… quem não deve não teme!
O menino, então, levanta o nariz desafiante, peito arfante d'um toureiro, olho no olho da multidão,e responde com voz surpreendentemente firme para a situação:
- Olha moço, eu corria porque hoje é domingo e tá na hora do jogo do meu Mengão. Por que, não se pode mais nem ir ao futebol nessa cidade?!

E, tomando pela mão o menorzinho que, contagiado por sua valentia
controla o choro numa convulsiva crise de soluços , afasta-se lentamente da multidão paralizada, a quem vai se dirigir, ainda uma vez, agora já cioso dos seus direitos constitucionais:

- "E não bate não, gente boa, não bate não que “nóis é di menor”.

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Antonio Veronese

 

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Tráfico no Leblon- O Globo

Nesses tempos de desemprego e dificuldades, tive uma idéia que pode ser muito lucrativa: montar uma boca-de-fuma na Zona Sul do Rio de Janeiro. Não em cima do morro como como as outras mas aqui embaixo, ao rés do chão, numa rua nobre e de grande poder aquisitivo. Pode ser, por exemplo, na Carlos Góis no Leblon, naquele quarteirão entre a San Martin e a Ataulfo de Paiva. A presença dos cinemas e do Cliper garantem ali grande afluência de público. Lucro certo !! Uma vez definida a localização da nova « boca » o resto é fácil… nas duas esquinas vou postar homens armados de fuzis AR 15. Afinal, se o ponto é bom, é previsível que grupos rivais tentem dele se apoderar. Espalhados pela quadra atuarão meninos fogueteiros treinados para avisar quando chega a polícia.

Naquela pequena galeria comercial, nos fundos dos cinemas, vou instalar o depósito do pó, e na lojinha do lado, que não deve ter o ponto assim tão caro, vou montar o arsenal; armamento pesado para garantir a segurança da boca. Para distribuição vou cooptar meninos na faixa de oito a dezessete anos residentes na própria área. Eles podem ser facilmente localizados nas portas dos colégios Santo Agostinho e Saint Patrick’s. Serão treinados e armados, devendo obediência cega ao chefe que, neste caso, serei eu. Seus salários, vou assegurar, serão em muitas vezes maior que as mesadas que recebem dos pais; uma forma eficiente de transferir o pátrio poder para o chefe da boca, quer dizer, do negócio. Ali vou mandar eu, a ferro e fogo, eu o novo chefe da Carlos Góis ! Quem ousar desrespeitar minhas determinações será sumariamente eliminado. Como decorrência natural deste poder, terei acesso irrestrito a todas as mulheres do quarteirão, independentemente se são casadas, solteiras, menores ou virgens. Como contrapartida distribuirei dez por cento do lucro à comunidade, dedicando especial atenção aos doentes e velhos. Assistencialismo de ocasião! Se o pessoal do vigésimo terceiro Batalhão ameaçar atrapalhar o negócio, tentarei subornar seu comandante, transferindo trinta ou quarenta por cento do faturamento para engordar a parca folha de salários da tropa… Se esse tipo de negócio dá lucro em áreas miseráveis da cidade, imaginem no Leblon.Como ninguém pesou nisso antes?
Esse projeto mirabolante, é claro, é só uma provocação. Imaginem o primeiro telefonema que receberia a Polícia Militar, quinze minutos após o início das minhas «atividades» na Carlos Góis :« aqui é o doutor fulano de tal… estão vendendo drogana porta da minha casa e eu exijo Imediatamente uma providência ». Manchetes escandalosas dariam conta de que um grupo de traficantes teria cometido a suprema ousadia de instalar uma distribuição de entorpecentes em plena zona sul, no seio de uma comunidade respeitável onde mora só “gente de bem!”. Em menos de duas horas haveria uma verdadeira blitzkrieg: polícia civil, polícia militar, polícia federal e exército, devolvendo, rapidamente, a paz à nossa respeitável Carlos Góis. poupando suas crianças do trágico destino de se transformarem em “vapores do tráfico” ou engrossar a aviltante cifra de 600 meninos assassinados por ano somente na nossa ´cidade “maravilhosa”. Por fim, resta uma singela pergunta: e no Morro do Alemão, no Vidigal, na Rocinha, no São Carlos, no Dona Marta, no Esqueleto,na Mineira, na Maré,no Encantado, no Pavão Pavãozinho, no Canta-Galo e em tantos outros sítios urbanos com jurisdição própria, onde o Estado, covardemente, está ausente? Por que os humildes moradores dessas favelas -a honestíssima vovó que mora vizinha à boca-de-fumo e que vê seu neto ser cooptado pelo tráfico- não podem simplesmente chamar a polícia?
Se os senhores Governador e Ministro da Justiça quiserem eu posso fornecer-lhes Uma lista com os endereços de quarenta “bocas” onde, hoje à noite, o tráfico vai funcionar a céu aberto, com filas de usuários educadamente postados à espera do “atendimento”. Locais em que crianças estão sendo corrompidas, mulheres ameaçadas, em que vidas preciosas são perdidas, em que autoridades policiais são aliciadas, em que o negócio floresce sem os riscos da rua Carlos Góis no Leblon. O resto é conversa fiada e pose solene de candidato. Afinal, como ensinava Bertrand Russel, solenidade é, na maioria das vezes,somente um disfarce para a impostura.

 

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Antonio Veronese (JB 2002)

 

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Na Corda Bamba- JORNAL DO BRASIL

De repente, como num passe de mágica, meninos de rua do Rio transformam-se em verdadeiros artistas de circo! Não mais lavam compulsoriamente nosso parabrizas mas, inesperadamente, oferecem um número de malabarismo. Não pedem  um real como esmola, a troco de nada, mas como um “couvert artístico” por essa fração de magia, um momento de inesperada fantasia circense na rotina sem graça do trânsito.
É certo que rua não é o melhor lugar pra estar uma criança…No entanto, nas circunstâncias em que vivemos, é inegável que compensar esses meninos com uma moedinha significa propor-lhes um admirável-mundo-novo onde, para ganhar dinheiro, é preciso dar alguma coisa em troca, em suma, merecer!!, e não somente estender a mão e pedir, como faz uma pessoa doente ou incapaz.

Numa hora em que a ciência vislumbra a possibilidade da clonagem de seres humanos, o que realmente me emociona é a constatação de que cada um desses meninos é peça-única, indivisível e inimitável como um óleo de Da Vince. E que, mais do que produzir em série geniozinhos de olhos azuis, o que me fascina é o desafio que temos de transformar o destino desses pequeninos artistas  de Deus aue, mesmo órfãos de sonhos e de fantasia, acabaram por transformar a cidade num grande circo a céu aberto. Literalmente, no maior espetáculo da Terra!

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Antonio Veronese

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A Liturgia da Cidadania – Jornal do Brasil

É estratégia do governo isolar o MST , e para isso questiona sua legalidade e legitimidade em decorrência das ações adotadas pelo movimento nas últimas semanas. Recorre ao que George Orwell chamou de “doublespeak”, a tentativa de impor à sociiedade a verdade do poder,independentemente da verdade dos fatos. Infelizmente grande parcela da imprensa se deixou levar pela esperteza do Planalto e, como conseqüência,cresceram nas páginas as críticas ao MST.
Questionar a legalidade é a ante-sala do recrudescimento da repressão, seja pelo aparelho estatal, seja pelas milícias privadas.Com isso FHC abdica de sua função moderadora, ensaia um discurso autoritário, e deixa escapar o papel que a História lhe havia reservado. Servem a essa estratégia as acusações de que o MST quer transformar-se em partido político e adotar o exercício político stritu-senso, como se não fosse esse um direito de todos os segmentos da sociedade. Acusam-no também de desviar-se do seu caminho original, cometendo ações urbanas atentatórias ao patrimônio e à segurança públicos. Num país como o nosso, onde é crônico o desrespeito aos direitos humanos e o genocídio de menores e a fome são manchetes cotidianas, impõe-se à sociedade a busca da justiça , alencando-se entre suas legítimas prerrogativas, in-stremis, a desobediência civil.

E isso está claro para MST , pois o governo só cede e é diligente nas regiões em que o movimento adota estratégias mais contundentes. O MST tenta com isso levar, além dos limites da geografia agrária, os horizontes da luta que se propôs. Justificam essa estratégia a fundada descrença nos mecanismos constitucionais disponíveis, e a insensível atuação de FHC, que frustra, enquanto chefe de Estado, as expectativas que em torno dele existiam. Nos últimos quatro anos aumentaram a tensão e o confrontamento, e são inocentes as avaliações de que essa questão possa ser resolvida pela força. Para peãozada do MST a fome e a exclusão são ameaças muito mais concretas que os cassetetes da polícia ou as armas dos jagunços a serviço do latifúndio. Para essa imensa parcela de brasileiros “Sem-Esperanças” , o MST é um canto de sereias irresistível, e é difícil abrir mão da utopia dos seus acampamentos , onde se ensaia um micro-Estado mais justo, para retornar à dura realidade do Brasil contemporâneo. A própria dinâmica do processo não vislumbra o recuo dessa marcha autorizada por inquestionável lastro moral. São milhões de brasileiros sem um palmo de terra para plantar, enquanto do outro lado da cerca o mato cresce sem pressa de crescer, num país onde 1% dos habitantes possúe 46% das terras produtivas.
O MST, mais que a reforma agrária, propõe ao país uma reflexão sobre a anacronía de uma sociedade cuja lógica é a excludência de um terço de seus habitantes, portanto, uma sociedade de extrema perversidade. Provoca-nos também a exercer nosso ” devoir d’insolence”, instigando o renascimento entre nós da liturgia da cidadania.
Por tudo isso, o MST é mais relevante do que insinuam seus precipitados detratores.
O tempo, certamente, irá conferir-lhe sua real dimensão histórica.Graças à sua atuação e ousadia, temos hoje 5 milhões de brasileiros assentados, em área que excede às da Holanda e Bélgica somadas. Isso tudo sem dar tiro, ainda que tenha oferecido 1.600 vítimas fatais à sanha de seus algozes. O presidente a República e parte da imprensa, ao cobrarem do MST que se mantenha dentro dos parâmetros da lei, parecem esquecer-se que o” estado de necessidade” reescreve os normativos da lei, a eles modifica e, por fim, a eles se sobrepõe quando não resta outra alternativa à fome e ao desespero. A paz no campo não será obtida pela força da lei, mas pela serenidade da justiça.
antonio veronese

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antonio veronese

 

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Amanda e Mauro   -O Globo

Segunda-feira, cinco e trinta da manhã. No barraco encarrapitado no alto da Rocinha, Mauro, dezesseis anos, corpo tísico de doze, toma uma xícara de café com leite aguado e mastiga às pressas uma “fetta” de pão lambido de manteiga. Bermuda e camiseta, par de tênis surrado com as meias rasgadas nos calcanhares, e o olhar perdido no facho de luz que, como um laser, escapa da janela e corta a escuridão do quarto onde a mãe ainda dorme.

Cenário dois: outro barraco, espetado sobre a meia-laje, não muito longe dali. Amanda veste com dificuldade o surrado vestidinho florido de viscose. Ela está muito acima do peso. “Sabia,moço, que depressão também engorda?” Há um mês, no exato dia em que fazia treze anos, ela perdeu a mãe subitamente: infarto fulminante. Fato, não ficção. O enterro foi numa segunda-feira, bem cedinho. No mesmo dia, depois do almoço, Amanda já estava no batente: “compra um chiclete aí, moço compra” ? Onibus das quinze pras seis da manhã. Maior sufoco! Um real só pra atravessar o túnel, enquanto o dia começa a clarear. Seis e cinco. Mauro assume seu posto próximo às figueiras do canal. Estica um olhar pro outro lado da pista expressa e faz um breve aceno com a mão. Amanda, rosto compenetrado, responde de longe, sem interromper o trabalho: “Compra só um moço, compra pra
me ajudar” insiste através da janela de vidro fechada do automóvel. O dia esquenta e a manhã se arrasta como a fila de veículos travados no engarrafamento. E a pratinha começa a pingar bem devagar: um real aqui, uma moeda ali…Oito da manhã; duas horas de batente. Amanda já fez, tirando o custo, um real e vinte centavos. Mauro, mais ligeiro na cobertura de sua área, soma 2,40. O dia promete! “O que atrapalha muito é o insulfilm” do vidro, reclama o menino. A gente não consegue mais ver a cara do motorista e, sem ver a cara do freguês, fica difícil começar a conversa, entabular a negociação. É triste encarar um vidro escuro onde tudo que vejo é a minha própria cara refletida. Nem sei direito com quem estou falando, se é homem ou mulher… Dia desses, continua, eu tava
apurado, precisando de uma grana extra pra comprar um remédio pra dor de dente da minha mãe. Ela tinha passado a noite em claro! Tava chovendo e com chuva a coisa se complica… Ninguém abre o vidro mesmo! Eu precisava de mais 2 reais de qualquer jeito para completar o preço do remédio, e nada. Quando a noite foi chegando e a agonia apertando, eu dei umas batidinhas no vidro de um carro pra ver se o cara abria, se pelo menos falava comigo. Abriu sim, só que uma pistola na mão que botou bem na minha cara: “se arranca, senão te queimo, vagabundo!”. Corri feito um louco, e mesmo depois do carro ter ido embora, meu coração ainda estava disparado, querendo sair boca afora. Amanda, que de longe viu a cena, foi se achegando de mansinho e sentou-se do lado, acarinhando seu cabelo: Calma, Mauro, o homem já foi embora, cagão! Aí comecei a chorar,
disse Mauro, “mas não foi um choro de medo. Foi um choro de raiva, de revolta mesmo, misturado com uma tristeza que ia apertando o coração. Acho que foi porque ali, naquele dia, eu aprendi de vez que eu era mesmo um bosta, um Zé-ninguém, e que não adiantava nem ir reclamar pro guarda”. Onze da manhã, cinco horas de trabalho. Trinta e seis graus no termômetro digital. Amanda está com uma fome dos infernos, sem contar o arrependimento porque teimou em colocar aquela sandalhinha branca de que tanto gosta, mas que não lhe serve mais. Os pés estão para explodir depois de cinco horas sem sentar, e a quentura do asfalto atravessa impiedosamente as finas tiras de couro da sola. Conta o dinheiro devagar: três e setenta, quatro, quatro e cinqüenta, quatro e sessenta… quatro reais e oitenta centavos! Mauro está num dia ruim; empacou nos quatro reais depois de um novo susto: um carro prateado acelerou com tudo pra cima dele quando abriu o sinal. Precisou dar um pulo de acrobata, senão… Amanda faz sinal de longe como a dizer “vamos comer” ? Mauro finge que não vê e nem responde. Está tão injuriado com o cara do carro
prateado que perdeu a fome. E o pior é que a essa hora já era pra ter feito uns seis reais , resmunga.

Onze e quinze. Amanda larga o posto e vai sozinha até a padaria. Além da fome está louca pra fazer xixi. Compra um pão doce e uma coca-cola. Um real e oitenta centavos. A massa gordurosa do pão e o gás carbônico do refrigerante dão-lhe uma sensação de saciedade gostosa, de barriguinha cheia. Depois de “almoçar” vai ao banheiro e à saída encosta-se num canto da padaria movimentada, tomada de assalto por um grupo de alunos da PUC. Gente bonita, faladeira…”As meninas têm cada roupa de moda!!”, fala consigo mesma. Acha linda uma blusinha vinho de uma delas. “Um sonho”! Depois conforma-se:
“Não pra mim, gorda que nem uma baleia”! Vai longe em seus devaneios quando o português lhe dá um tranco, trazendo-a de volta à realidade: “Se quer mais alguma coisa desembucha, do contrário se manda que aqui não é estacionamento”. Recolocada na rua Amanda se lembra do trabalho. E recrimina-se: parou quase quinze minutos! Volta pro seu posto esticando o olhar em direção ao canal. Será que Mauro já “almoçou”?…Vai um chiclete aí, moço? Compra pra me ajudar… Treze horas. Tirando os quinze minutos de almoço, já são quase sete horas de trabalho sob o sol de estio. Mauro voltou do seu lanche mas, definitivamente, não está de bom humor hoje. Não responde aos acenos de Amanda. Faz um calor dos infernos e agora mesmo é que ninguém mais abre a janela do carro, por causa do ar condicionado. O faturamento está se arrastando e a morraça da tarde apenas começou. A bermuda sintética de Mauro começa a assar-lhe as partes pudendas, e os calcanhares, suados nos rasgos das meias, grudam na sola do tênis como um bife em chapa quente. Bife! , pensa ele, mas depressa desvia o pensamento pra não ficar com fantasias. Almoçou um pastel e um refrigerante: um real e sessenta centavos. Quanto é o chiclete, moleque,
pergunta um rapaz novo, enquanto desce o vidro da janela. “Um é um , três é dois”.Amanda do outro lado, solitária em meio a tanta gente, estica, enquanto não abre o sinal, um papo com um senhor de boa aparência, terno e gravata impecáveis: Onde você mora menina ..Na Rocinha, tio… Quantos anos você tem? Fiz treze no dia em que minha mãe morreu…Quer que eu te leve em casa? Pergunta o homem. Não senhor que eu tô trabalhando. E quanto é que você ganha por dia vendendo esse bagulho aí? Depende, tio, às vêis dez, às vêis vareia… O homem então estica o olho no guarda de trânsito, enquanto murmura entre dentes: entra aqui que eu te levo em casa e ainda te dou os dez reais por fora. Não carece de trabalhar mais hoje. “Não vou não senhor, diz a menina, minha mãe sempre me proibiu de entrar em carro de estranhos”. Mas ela nem vai saber, insiste o motorista, enquanto o sinal ameaça abrir. “Saber ela não vai mesmo”, diz Amanda. “Minha mãe morreu no dia em que eu fiz 13 anos”… Então, entra aqui, propõe mais uma vez o cidadão. “Entro não senhor. Compra um chiclete, moço…um é um , três é dois…compra só um pra me
ajudar”? O sinal se abre e o carro arranca, sem mais formalidades.
Quatro e meia da tarde, dez horas e meia de trabalho. Amanda teve uma tontura com o sol e a dieta parca em proteínas. Ia cair, mas buscou forças, chamou por Nossa Senhora, e não caiu… só derrubou a caixa de chicletes. Uma caminhonete arrancou e passou por cima de uma embalagem e, antes que perdesse todo o estoque, Amanda se arrisca para salvar o resto, quase sendo atropelada. Prejuízo de 1 real. Senta-se na calçada com uma zoeira na cabeça que parece querer explodir. De uns tempos para cá, deu de ter umas manchas na vista e depois vem uma enxaqueca dos infernos. Olha no relógio da esquina: 38 graus. Conta e reconta outra vez o capital: onze reais e vinte centavos, tirando o da passagem do ônibus
de volta, guardado em separado. Uma senhora estica a mão e dá-lhe um caramelo. Deus lhe
pague, tia. Mastiga a bala devagar, fazendo render, a língua enfeitiçada pela doçura do mel. Moço, que horas são? Valeu! Dá um friozinho de felicidade na barriga. Graças a Deus, já tá quase na hora de voltar pra casa!

Dezenove horas. No ponto de ônibus, quase em frente à PUC, encontram se, ao final de
mais um dia de trabalho, Amanda e Mauro. Só um olhar, um sorriso seco. Quanto tu fêiz?
Pergunta a menina. “Num é da tua conta… E tu, quanto fez”? Quinze real, responde Amanda, fazendo pose. Hum, tá de caô, baleia? Que quinze que nada! Amanda abre um sorriso que ilumina o rosto cansado: fiz 12,80, tirando o almoço. Fiz melhor que tu, vangloria-se Mauro… fiz quatorze!! No ônibus lotado vão os dois em pé, lado a lado, num silencio cúmplice. Saltam no Boiadeiro, passo apertado, despedindo-se com um breve gesto de mão.

Esta história verdadeira, com seu casal de protagonistas e enredos que pouco mudam, repete-se todas as manhãs, há mais de seis anos, no cruzamento da Lagoa-Barra com a Visconde de Albuquerque, na Gávea. Amanda e Mauro estarão lá amanhã bem cedinho, torcendo pra não chover, pra não fazer muito calor, pro sapato não apertar, pra cabeça não doer e, principalmente, pra que a féria seja boa. Um dia perguntei ao Mauro: e se tu ganhasses na loteria, o que querias pra ti? E ele respondeu sem pensar nem um segundo: “ eu voltava a estudar, tio, porque eu gosto mesmo é de escola! Antonio Veronese

Remoção de Favelas, Direito de Todos

“Feio, não é bonito, o morro existe mas pede prá se acabar”
Gianfrancesco Guarieri e Carlinhos Lyra

É impossível discutir remoção de favelas no Rio de Janeiro sem despertar de pronto o patrulhismo “politicamente correto” dos que defendem os direitos desses guetos contemporâneos. Mas que direitos são esses? Posso falar com alguma experiência pois, em 1992, estive na linha de frente do movimento que removeu a favela do Alto Leblon. Na ocasião a sociedade civil, atuando no hiato da autoridade constituída, mas com inestimável apoio da prefeitura, financiou e executou a remoção de toda uma comunidade precariamente instalada no bosque do Alto Leblon. Contrariando prognósticos dos céticos e ignorando insinuações de detratores de primeira hora, o projeto foi de um êxito completo: duas centenas de pessoas que ali habitavam barracos rústicos e sem direito às decências básicas, deixaram de ter o status de invasores de um próprio público para assumirem a condição de legítimos proprietários do seu imóvel de residência, com direito a água encanada, esgoto, luz elétrica e titularidade firmada em registro público.
A remoção foi feita no interesse Alto Leblon formal, (aquele que paga impostos e que não gosta de ter favela por perto), no interesse da ecologia ( com o replantio de um bosque da Mata Atlântica de luxuriante diversidade que estava sendo destruído) mas , especialmente , no interesse dos próprios moradores da antiga favela que, colocados diante da possibilidade de ganhar uma casa própria, concordaram de pronto em deixar a área invadida. Todos os moradores,sem exceção!! A única reação adversa veio de traficantes instalados no local que, contrariados em seus interesses econômicos, tentaram obstruir a remoção, ora com ameaças, ora recitando a cantilena mesma do “direito da favela de existir”..
Sabe-se que a imensa maioria dos moradores de favelas é gente honesta e trabalhadora, empregada na própria região. Habitam a favela por absoluta falta de alternativa. No entanto, o ingênuo fatalismo que se socorre dessa realidade para defender a preservação! das favelas, (e que conta com apoio de respeitáveis personalidades da sociedade e cultura cariocas!) acabou por desencadear um processo de septicemia do espaço urbano que está destruindo o Rio e, por conseqüência, sua capacidade de seduzir e atrair turismo. Turismo, ressalte-se, que dá emprego e gera impostos que sustentam os investimentos sociais de que são mais carentes, justamente, os moradores de favelas.
A área urbana que interessa ao turismo no Rio é, por conseqüência , um extraordinário patrimônio que pertence a toda a sociedade e cuja preservação, e correta exploração no sentido de maximizar suas potencialidades turísticas, aproveita a todos os cariocas sem exceção. Além disso, a retórica simplista do “direito da favela de existir” favorece à crônica omissão do Estado brasileiro em assegurar a todos um direito que é constitucional, qual seja, o de morar com dignidade! Este sim um valor que deveria ser objeto da defesa intransigente dos patrulheiros de plantão. Quem conhece o interior de uma favela, (eu trabalhei com meninos favelados por 16 anos), sabe o que significa morar ali: falta de saneamento básico, maior incidência de doenças infecto-contagiosas, coleta de lixo inadequada ou inexistente, promiscuidade, dificuldade de acesso para os idosos e as crianças, riscos de desabamentos e catástrofes anunciadas nos períodos das grandes chuvas… Não bastasse esse rosário de penas, há ainda o martírio diário da convivência com a violência entrincheirada do tráfico de drogas , a indigna submissão ao estado paralelo que produz situações como a do último fim de semana, quando uma parturiente teve que dar seu filho à luz no meio da rua, pois o acesso da ambulância foi negado pelo xerife do morro . Nessas comunidades infectadas pelo crime organizado, vivencia-se a tensão crônicamente, o que faz que 61% de suas crianças, de acordo com estudo da Pediatria do Miguel Couto, padeçam de doenças psico-somáticas relacionadas ao medo. Quem conhece as nossas fazendas de produção de leite sabe que hoje, no Brasil, o gado leiteiro vive com mais higiene e facilidades do que os moradores de algumas de nossas favelas, sendo oportuna a citação de Bloch de que “…a massa de pessoas reduzida a gado humano é um dos mais fiáveis indicadores de não-civilização”. As favelas cariocas, esses estados paralelos com jurisdição e soberanias distintas, com exércitos próprios e leis de taliban, são um escárnio à Justiça e uma afronta aos direitos de brasileiros pobres que, da mesma forma que os moradores do asfalto, trabalham e pagam impostos embutidos em cada litro de leite que consomem. Retirá-los desta condição sub-humana deveria ser impositivo ao orçamento público, e a ladainha da falta de recursos mascara, na verdade, a indigência de coragem e de determinação política, anestesiando na sociedade o debate de um tema crucial. Defender a jurisdição civil da favela é contribuir para a perpetuação do paradigma, apontado por Joel Rufino, “da competência das elites brasileiras em manter a dominação…” A mudança dessa mentalidade pode ser o primeiro passo para um novo tempo onde sejam respeitados o patrimônio urbano, a ecologia e, principalmente, o direito constitucional que todos têm de morar com dignidade.

 

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O Ataque a Leila Schuster-O GLOBO

O ataque que sofreu a senhora Leila Schuster à saída do Fashion Rio é a dramaturgia perfeita do drama carioca. Por obra do acaso cruzaram-se, em uma esquina do Rio, o glamour inacessível de uma elite de privilegiados com a barbárie nossa de cada dia. Infelizmente, mais uma vez, a tragédia dessa conflagrada convivência não será suficiente para romper os grilhões da nossa passividade.

Dia desses ouvi de uma “socialite” a afirmação de que tinha um carro blindado e que, portanto, não se sentia incomodada com a violência carioca. Uma semana depois, outra senhora da nossa sociedade, cometendo a imprudência de abrir a janela para fumar, foi brutalmente assassinada no Leblon, ainda que também tivesse um automóvel blindado.

Há dois dias uma nota de grande arrogância de uma das nossas colunas “sociais”, dava conta que a  senhora Schuster acabara de construir em sua casa um deck de 400 metros que “… mais parecia coisa de outro mundo!”...

 

A alienação das elites brasileiras é uma endemía, e resulta dela a espiral septicêmica da violência que nos envergonha diante do mundo civilizado. O ataque covarde à senhora Schuster colocou-a, por um instante de terror, no “front” dessas duas realidades tão distintas, mas indissociáveis. Amanhã os jornais já terão dela se esquecido. Outras vítimas ” mais frescas” vão assegurar-lhes o repasto diário de sensacionalismo. E nada, rigorosamente nada!, será proposto por essa elite intoxicada de superficialismos e obsecada por vãs notoriedades. O Rio de hoje é um espectro do que foi um dia, terra de cultura e poesia, centro do pensamento nacional.

Antonio Veronese- O Globo-19 de janeiro de 2007

 

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antonio veronese

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Sertanejos lideram arrecadação de direitos autorais de 2010

 

 

 

Ando com um banzo danado, saudades de um tempo feliz que ficou pra trás...”Rio que mora no mar, sorrio pro meu Rio que tem no seu mar, lindas flores que nascem morenas em jardins de sal”… Voilá, uma panfletagem estética definitiva do Rio , ......com um vanguardismo de Las Señoritas de la Calle d'Avingon e a leveza de um móbile de Calder”

Hoje dá uma tristeza danada ligar a tv e ver sempre aquela mesma porcaria multifacetada em funk, pagode ou, o que é ainda pior, nessa música neo-caipira de três compassos, com seu romantismo piegas e suas rimas de infinitivo. O povo gosta, dizem alguns . Gosta? Gosta nada!! O povo não tem é escolha, porque não tem acesso à cultura, porque não tem elementos de comparação, por que só conhece o sub-produto que lhe impõe a nossa televisãozinha de merda, vazia de valores e cheia de conceitos artificiais…
Li que a dupla Sandy e Junior gasta cinco milhões de reais somente em divulgação. Pois acredito que se dessem dez por cento dessa grana para divulgar Carlos Cachaça e Cartola eles venderiam mais do que essa dupla de adolescentes pós-caipira que, para a infelicidade geral da harmonia, confirma o ditado que diz que “filho de peixe, peixinho é”.

Pior ainda é o “esquemão” que se aproveita da omissão do Estado na exigência de contrapartidas estético-culturais nas concessões que faz de radio e televisão. Esquemão que fomenta a peita cumplicidade e provincianismo de programas como o de Faustão e Gugú que, com sua idolatria de chinfrins movidos a jabaculê, acabaram por nos impor essa porcariada toda.

- Desligue a tv, pôrra!, propõe-me um amigo.

- Mas de que adianta?- se sou perseguido por esse lixo sonoro que se dissemina como antraz onde quer que eu vá: no volume incivilizado da televisão do vizinho, no rádio mal sintonizado do táxi, no ”som-ambiente!?” do restaurante...

Sobrou-me apenas o toca-fitinhas do meu automóvel, último reduto prá satisfazer minha dependência crescente de doses massivas de Tom, Vinicius, Carlinhos Lyra, João Gilberto, Donato, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, Johnny Alf, Nara, Silvinha...Uma turma da pesada que produziu a mais universal de todas as produções de Pindorama: a Bossa Nova!! Enquanto essa bossa esperta enche teatros no primeiro mundo, continuamos no Brasil ouvindo essa músiquinha burra, imposta pelas gravadoras burras, a um mercado cada vez mais burro. Sintomática desta burrice, que perpassa mesmo a "elite" brasileira, foi a atitude da “seleta?” platéia do Prêmio Multi-Show no Teatro Municipal, que se pôs em debandada assim que Bebel Gilberto iniciou sua apresentação.

Mas, nao se deixe contagiar pela minha nostalgia… talvez seja apenas saudade de um tempo feliz que ficou pra trás. Talvez seja só um pouquinho de tristeza por um país que, tão rico na música, insiste em chafurdar na mediocridade. .
Por isso ouso ainda ter esperança que o Brasil volte um dia a ser como há cinquenta anos atrás, quando já estávamos cem anos à frente de hoje em dia.
 
 


O Globo, 2002_____________________________

DSCF9736.JPGCom a cineasta Flavia Orlando    

 

 

 Os Quatro Pirralhos

 


São quatro pirralhos em louca correria sob a chuva fina da Lagoa-Barra. Quatro brasileirinhos cascas-grossas, filhinhos-de-Deus e da-puta, num ziguezague infernal na roleta russa dos carros em movimento:

-Pega, pega…

O que vem na frente, o mais graudão dos quatro, tendo já assegurado o produto do roubo nas profundezas cárneas da cueca, estampa no rosto uma ‘overdose’ de adrenalina; olhos que saltam das fossas faciais, como caricaturesca Beth Daves em agonia.

Logo atrás, voando baixo, vem um mais escurinho cobrindo a retaguarda: bichinho miúdo, cabeça lisa e canela fina, dentes de alemão apesar da infância de pouco leite, cabeça girando num frenesi que faz  saltar os tendões do pescoço como um beque-central no sufoco da pequena área.

Ainda mais atrás, retardados na louca carreira, vêm dois mais minguadinhos, ’physic-du-rôle du miserê”,  destrambelhamento de rês-desgarrada,  pés descalços no malabarismo do asfalto molhado tentando – no limite dos pulmões- acompanhar os proeiros na cavalgada infernal...

-Pega, pega os filhos da puta! –grita o cidadão engravatado arfando pelas ventas, carro abandonado pra engrossar o corso ensandecido dos perseguidores. 

-Peega!- repete em coro a multidão, extasiada com o circo-de-horrores que se instala e quebra a rotina sem graça da tarde domingueira.

Lá embaixo, alertado pelo banzeiro, um guarda de trânsito  saca enorme cacete e prepara o cerco. A platéia congela em surda expectativa…O maior dos quatro, ignorando a autoridade constituída, mantém aceleração e curso inalterados até que, na iminência do bote final, já nas ventas do parrudo, da' um salto de acrobata e, desdenhando a lei da  gravidade como um personagem de Chagal,  voa por cima dos carros retidos no  sinal, desaparecendo  sem deixar vestígios na dobra da esquina do canal.

-Esse já era!!-, vaticina o apontador do bicho, sem conter o sorriso de satisfação.

O segundo neguinho, o que vem na cobertura, fiando-se na rota traçada pelo proeiro, acaba caindo na mesma armadilha: o estreito  matadouro entre os ônibus e o paredão. 

-Esse não escapa!! -grita a multidão, babando seu sadismo- mas o moleque, que traz nos calcanhares, em fúria, o motorista “ desapropriado” de sua carteira, não desacelera o curso suicida, parecendo desdenhar as agruras do destino.

-Pega, pega esse, porra!- , grita a grã-fina do carro importado, enebriada histeria. Pega!!, repete a “matilha” de marmanjos vitaminados que, sorvendo seu coquetel de adrenalinas, encena uma verdadeira "chasse à courre" à la française...

Na esquina do canal o miliciano espera o segundo moleque abrindo braços e pernas como o goleiro na hora do pênalti. A multidão  emudece de expectativa.  Num gesto brusco o motorista, que corre colado na traseira  do "meliante", avança a perna de capoeirista competente e desfere violento rabo-de-arraia nas canelas tísicas do velocista. O franguinho desequilibra, faz que cai mas não cai, bambeia mas se segura e, pedindo ajuda à Nossa Senhora d'Aparecida, ginga o corpo ensaboado de suor passando, liso como sabonete,  entre as pernas do policial, Garrinchinha brasileiro! que desaparece na mesma esquina do canal. O apontador do bicho não resiste e soca os céus num eufórico -puta-que-pariu!!-

Mas ainda restam dois, meu Deus!!, os dois mais miudinhos da rabeira, tentando escapar no labirinto do congestionamento.

-Tem mais dois!!,  aponta aos berros  a granfina. A multidão gira as cabeças numa coreografia de Rolland Garros…-Lá atrás, tem mais dois!!-, repete o circo romano, enquanto o guarda  recompoe-se do vexame da queda e tenta reassumir o controle da situação:- Pega, pega os ‘lazarento’, não deixa escapar!!

 Minduin, sararazinho desdentado, sete aninhos de sobrevivência e sete vidas de exclusão,  entra zunindo  no curral estreito dos automóveis. Cercado, atira-se por debaixo do lotação e da'de cara, na calçada oposta, com Dentinho, o menorzinho de todos e unico branquela dos quatro que, sem mais forças pra correr, começa a chorar... um choro fundo, desesperado, o pavor estampado nos olhos miúdos de criança:

-...espera eu Minduim, espera eu, implora . Não me deixa eu aqui!!!...

Minduim, sensível ao choro do pequenino, vacila de solidariedade, atrasa o passo e estica a mão solidária, mas perde tempo precioso ... O cerco se fecha, não há mais como escapar! Num último e desesperado recurso, atiram-se os dois filhinhos-de-Deus no canal da Visconde, acoutando-se sob a velha ponte de pedra. A cavalaria dos perseguidores, vitoriosa, em êxtasis, cerca e faz o paredão. Fim da linha! A andrajosa parelha entrega-se derrotada à agua putride, os ossos das costelas abrindo o fole da sanfona do peito como na agonia da consumpção. Dentinho chora convulsivamente, mas Minduim, medo e revolta destilados em surpreendente valentia, encara a multidão :

-Bate não, filha da puta- ameaça o pequenino, valente como um sagüi encurralado. -Tá me segurando por quê, filho da puta? Que foi que eu fiz?

-Roubou minha carteira-, grita espumando pelas ventas o motorista que, a muito custo, é contido em sua fúria pelo policial.

-Eu te roubei!? Eu não  roubei nada não!, urra o pequenino. Quem te roubou foi Tião, o negão qu'ocêis deixaram escapar. Eu num roubei ninguém, não!!-, repete, engrossando a voz ante o silêncio da platéia atônita. -Cadê, cadê tua carteira?, continua ele. Cadê? Comigo é que num tá! Olha aqui, pode ‘arrevistá’, grita o moleque, desvincilhando-se num tranco da própria camisa presa nas mãos do motorista. Olha ai,  eu num roubei nada não! Ta vendo? Eu tô limpo, limpo!!!!... e larga eu, filho-da-puta...

- Por que é então que  tu corria, pivete?- pergunta-lhe o policial… Quem não deve não teme!
O menino então, levantando o nariz e arfando o peito com a arrogância de um toureiro, olho no olho da multidão,  responde com voz surpreendentemente firme para a situação:
- Olha seu moço, eu corria porque hoje é domingo e tá na hora do jogo do meu Mengão. Por que, não se pode mais nem  ir ao futebol nessa cidade?!

E, tomando pela mão o menorzinho que, contagiado por sua valentia
controla o choro numa convulsiva crise de soluços, afasta-se lentamente da multidão paralizada, a quem dirige-se uma ultima vez, agora ja cioso dos seus direitos constitucionais:

- E não bate não, gente boa, não bate não que “nóis-é-di-menor”.

Antonio Veronese

 

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antonio veronese

14-janvier-09 014

A DUPLA RO-RO

(este artigo foi escrito em 1998)


Na hora sagrada do meu “chopinho-nosso-de-cada-dia” começa, na mesa ao lado no botequim, um bate boca infernal. Motivo da querela: a dupla Ro-Ro na seleção brasileira de futebol... Ronaldinho e Romário, defendem uns, em acirrada discordância com outros...Todos em etílica desarmonia!

No calor da discussão um dos porristas, incomodado com minha serena imparcialidade, vira-se e pergunta de chofre:
-E tu aí, simpatia, és a favor ou contra a dupla Ro-Ro na seleção?

Tomado de surpresa , e tentando ser poupado do embrólio, respondo que não sou nem a favor nem contra, muito pelo contrario!! Em vão…O caraquer-porque-quer saber minha opinião, como se fôra eu reputado estrategista do velho esporte bretão:

-Ô amizade - re-ataqua o troglodita- vais ficar em cima do muro, é?! Desembucha de uma vez, tu és a favor ou contra a dupla RO RO?!

Sem alternativa tento, num derradeiro recurso, encontrar uma saída diplomática que me assegure o direito “constitucional” de beber minha cervejinha em paz. Assim, após breve pausa, e diante do constrangedor silêncio dos hunos da mesa ao lado, respondo pausadamente:

-O problema, meu caro amigo, é que em se tratando de dupla RO-RO a minha é mais antiga que a tua!! A minha dupla Ro-Ro tem mais de sessenta anos, e pertence a um grupo de meninos da zona sul do Rio que resolveu mudar a cara da música popular brasileira, redesenhando a própria identidade de toda uma cidade. Então, marcando o compasso sobre a mesa, começo a cantar baixinho: -”Rio que mora no mar, sorrio pro meu Rio que tem sua mar, lindas flores que nascem morenas em jardins de sal”… Voilà, concluo, uma panfletagem estética definitiva do Rio, com o vanguardismo de Las Señoritas de La Calle Avignon e com a leveza de um móbile de Calder.”

O porrista,  como que confrontado a um novo samba do Criolo Doido, retruca de cara feia:

-Que é isso, cidadão,  tá gozando com a minha cara?

Preocupado com o rumo que toma o nosso “amigável” coloquio, finjo calma e esmero-me na explicação:
-Calma, companheiro, que não é nada pessoal. Muito pelo contrário… o que estou tentando dizer é que eu ando com um banzo danado, saudades de um tempo feliz que ficou pra trás quando o Brasil, na bola e na bossa, ja era o primeiro do mundo.

-Quer fazer o favor de se explicar melhor…retruca meu truculento interlocutor, enquanto sorve de um só golpe mais um bracarensiano na pressão.

-Eu explico, eu explico ... é que me dá uma tristeza danada ligar a tv hoje em dia, e ver sempre as mesmas caras, aquela mesma porcaria multifacetada em funk, pagode ou, o que é ainda pior, nessa música neo-caipira de três compassos, romantismo piegas e rimas de infinitivo. O povo gosta!, dizem alguns... Gosta? Gosta nada! Consome porque não tem escolha, porque não tem acesso à cultura, porque não tem elementos de comparação, por que só conhece esse sub-produto que lhe impõe a nossa televisãozinha de merda, de valores vazios e conceitos artificiais…

O porrista então, parecendo serenar-se pela cumulação dos decilitros, arrefece o seu “animus-disputatio” dando-me a chance de prosseguir na temeraria defesa da minha tese:

-Li hoje, continuo, que a dupla Sandy-e-Junior vai gastar cinco milhões de reais  em divulgação. Pois acredito que se usassem essa grana para divulgar Carlos Cachaça e Cartola, estes venderiam mais que a dupla de adolescentes pós-caipira que, para a infelicidade geral da harmonia, confirma o ditado de que “filho de peixe, peixinho é”. 

Pior ainda -prossigo eu- é o “esquemão” que se aproveita da omissão do Estado na exigência de contrapartidas estético-culturais de interesse público nas concessões que faz de radio e televisão. Esquemão que fomenta a peita cumplicidade de programas como os de Faustão e Gugú que, com sua idolatria de chinfrins movidos a jabaculê,  acabaram por disseminar a porcariada toda.

- Desligue a tv, pôrra!, propõe-me, mais amistoso apesar do jargão!, o meu "companheiro" de botequim.

-Mas de que adianta?, retruco, se sou perseguido por esse lixo sonoro onde quer que eu vá:no volume desmesurado da televisão do vizinho, no rádio do táxi,  no ” som-ambiente!” do restaurante...

Fez-se  uma pequena pausa, um silêncio no botequim!, em que dedico ao meu de chope esquecido no fragor discussão... O meu interlocutor, desistindo finalmente da inquirição, coloca a mão amistosamente no meu ombro e murmura, entre dentes, o seu axioma de concordância:

-É verdade,… pobre geração Renato Russo!!

Aliviado, aproveito-me da sua efêmera cumplicidade para desfiar minhas mágoas, como se estivesse agora no divã do meu analista:

-Sobrou-me apenas o som do meu automóvel, continuo,  último reduto prá satisfazer à minha  dependência crescente  de Tom, Vinicius, Carlos Lyra, João Gilberto, Donato, Hime, Chico e Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal, esta sim-finalmente revelo- a minha dupla Ro-Ro preferida!!

O bêbado, ja entao cumplice da minha nostalgia, "tamborila"  no copo de chope, cantarolando sem jeito: - O barquinho vai, a tardinha cai…- é, concorda finalmente, ta ai uma dupla Ro-Ro do cacete!

- Uma dupla cheia de bossa, continuo eu, que juntamente com essa  turma da pesada, produziu a mais universal das produções made-in-Pindorama: a Bossa Nova!! Enquanto essa bossa enche teatros no exterior, -continuo diante do meu agora atento ouvinte- continuamos aqui no Brasil ouvindo esse musiquinha burra imposta pelas gravadoras a um mercado cada vez mais burro. Sintomática desta burrice, que perpassa mesmo a elite brasileira, foi a atitude da “seleta" (?) platéia do Prêmio Multi-Show no Teatro Municipal, que se pôs em debandada assim que Bebel Gilberto iniciou sua apresentação.

Fez-se uma longa pausa em que o borracho, olhar distante e cerrado cenho, pareceu esquecer-se até do copo chope.

-Vamos mudar de assunto, proponho-lhe, satisfeito com seu silêncio reflexivo. Não se deixe contagiar por minha nostalgia… talvez seja apenas saudade d'um tempo feliz que ficou pra trás...Tristeza por um país que, tão craque na bola como na música, insiste em chafurdar na mediocridade. Ah, e por falar nisso, concluo finalmente, concordo  também com a tua dupla Ro-Ro na seleção brasileira!


O bêbado, finalmente, desfraldou no rosto um  sorriso desarmado, e seguimos bebendo solidários noite afora, assaltados da esperança de que, na bola e na bossa, o Brasil volte a ser como há quarenta anos atrás, quando já estávamos cem anos à frente de hoje em dia.

 

antonio veronese, 1998

www.antonioveronese.over-blog.com

 

 

 

MERCREDI 24 NOVEMBRE 2010
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600 Enfants

Imaginez une salle de classe petite et sombre aux murs suintants avec quarante-six enfants. Vingt-cinq sont noirs, douze mulâtres et neuf blancs. Seize ont des poux, quatre on la gale, onze de la conjonctivite, un a le corps bardé de furoncles. Vingt- trois sont couverts de cicatrices résultant d´agressions, douze ont déjà été blessés par balles, quatre au couteau, trois présentent des marques de brûlures. Vingt-six sont analphabètes, douze n´écrivent que leur nom, vingt-huit sont orphelins de père, hui de mère et six de père et mère. Dix-neuf ont été violés, trente-neuf ont déjà fumé de la marijuana, quarante et un ont respiré de la colle, vingt-deux sont drogués à la décoction de champignons, sept ont des tics nerveux, dont le bégaiement. Un est hypermétrope et souffre d´une cataracte dégénérative, un a une pneumonie, un probablement la tuberculose, un a la peau de la jambe droite si fragile suite à des brûlures au troisième degré qu´elle se rompt au moindre contact, vingt-trois ont des maladies vénériennes, six sont condamnés à mort par les narcotrafiquants, onze ont de sérieux désaccords au sein de leur propre communauté ou au sein de la prison, un a sur le corps dix-huit cicatrices de brûlures de cigarettes et a complètement perdu l’articulation de son coude gauche après avoir été attaché et traîné par une voiture. Cette salle de classe, dans une prison pour mineurs, dégage un mélange d’odeurs de dérangements intestinaux et de sueur. Ce groupe de malheureux ne dérange plus; on l’a retiré des rues, il ne met plus personne en danger. Ce groupe est mal-né, a grandi mal nourri ; dès l’enfance ils ont été battus comme s’ils étaient grands ; encore impubères, ils ont pratiqué le sexe comme des adultes… Ce groupe de misérables a vite découvert qu’une goutte de colle de cordonnier éloigne la faim et aide à dormir et que son coût est dix fois inférieur à celui d’un hamburger. Ce groupe d’enfants, complètement orphelins de l’Etat, a bien essayé de trouver un emploi mais a fini par céder aux appels des sirènes des trafiquants, avec leurs propositions d’argent facile et d’émotions sans limites. Ce groupe, au passé tragique et au futur sombre, est réuni dans cette classe, dans la torpeur d’un après-midi, pour écouter Mozart et peindre à l’huile. Il est surprenant de constater que le travail qui sort de cet atelier enchante et révèle, malgré tout, une réminiscence d’âme d’enfant chez ces gamins au vilain visage et à l’histoire triste. Grâce à l’apprentissage de la peinture et à l’écoute de la musique, plus de cinquante pour cent d’entre eux verront leurs peines réduites et seront considérés réadaptés à la société. Stimulés par des activités esthétiques et culturelles, ils s’émeuvent et récupèrent rapidement leur estime de soi et leur dignité. La violence à l’intérieur du groupe chute à zéro, sa récidive, trois fois moindre. Rien qu’à Rio, plus de cinq cents enfants sont assassinés chaque année. Cinq mille cinq cents subissent des lésions corporelles graves et soixante et onze pour cent de tous les enfants de Rio, indépendamment de leur classe sociale ou de la géographie urbaine, pâtissent de maladies psychosomatiques causées par la peur. Je viens de présenter devant la Commission des Droits de l’Homme aux Nations Unies, les photographies de cent soixante de ces enfants avec lesquels j’ai travaillé et qui ont en commun des corps marqués de quantité de cicatrices dues à la violence urbaine, domestique et policière. Les chiffres du recensement de la violence contre les mineurs à Rio nous permettent d’affirmer qu’il y a un génocide de jeunes en cours au Brésil ! C’est de cela dont nous devons nous occuper en priorité!(Texte publié par  Veronese, maître de peinture dans les prisions de mineurs au Brésil)

MERCREDI 24 NOVEMBRE 2010


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Jeitinho Brasileiro

 “O Brasil  precisa olhar-se no espelho. Sentir  vergonha já é um bom começo

 O que aconteceu com o avião da TAM  em São Paulo é resultado de uma absurda convergência de incompetências e irresponsabilidades e eu, que moro no exterior, confrontado com as manchetes internacionais sobre o acidente, sinto-me  envergonhado. Quando leio os números censitários da violência e do trânsito brasileiros ( hoje mesmo o Le Figaro fala dos 35.000 mortos por ano devido à má conservação das estradas) e, quando  tomo conhecimento, logo pela manhã, que mais de uma dezena de voos internacionais que se dirigiam ao Brasil foram obrigados a retornar ao  pais de origem devido à uma “pane suspeita”  do controle de tráfico aéreo, sinto-me humilhado e envergonhado.
Chegamos a uma situação que impõe uma reflexão, e culpabilizar somente a incompetência e improbidade da classe politica não é suficiente: há que se ir além.
O brasileiro sofre, como jamais, as consequências de arcaísmos e vícios de sua personalidade, como a apatia e a elasticidade moral. Façamos um exercício de mea-culpa: você já avançou um sinal vermelho?  Já subornou  um policial? Já desrespeitou o limite de velocidade? Já estacionou em local proibido? Já jogou lixo em local inadequado? Já desrespeitou a lei do silêncio? Já dirigiu depois de beber? Já foi indiferente ao sofrimento da população de rua? Já foi truculento no trato dos seus semelhantes, insensível às limitações dos velhos, deu mal exemplo às crianças?Você gosta de levar vantagem!!??  
Nós estamos transformados, pelo raquitismo da nossa cidadania, em um país de segunda classe.  Recebendo em minha casa uma senhora da chamada elite carioca, ouvi dela a afirmação que a violência carioca não a incomodava, pois que possuía um carro blindado!?. Chegamos a um nível de alienação tão assustador que negamos a reeleição a Antonio Carlos Biscaia e a reelegemos, com a maior votação do país,  o “conhecido” senhor Paulo Maluf....
O acumulo de incompetências e irresponsabilidades que provocou o acidente da TAM, seja pela deficiência técnica da pista, seja pela localização inadequada do aeroporto, seja pela imoral autorização de um voo com restrições mecânicas, é só mais uma das consequências deste emaranhado cotidiano de pequenas infrações, negligências, licenciosidades, charminhos e travessuras que costumamos chamar, com uma ponta de orgulho e grande dose de ingenuidade, de jeitinho brasileiro.
Um país, para sair do caos, precisa de elite pensante e de tolerância zero. No Brasil de hoje a elite pensante  cabe em uma plateia do Canecão e a simples expressão tolerância zero  faz soar o clarim do patrulhamento reativo aos anos de chumbo,  que confunde ordem pública com direitos civis.
 Ghandi dizia que para se ter uma visão  da floresta é preciso afastar-se das árvores. Olhando o meu país à distância, salta-me aos olhos que o caos desses nossos tempos de cólera  é culpa e responsabilidade de todos nós . Precisamos, com urgência, olharmo-nos  no espelho. Sentir vergonha já  é um bom começo.
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