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"A arte precisa provocar o espanto, mas só os idiotas espantam-se com o ordinário"

 

 

Convidado pelo Jornal da Tarde, do grupo "O Estado de São Paulo", para avaliar a Bienal de São Paulo de 2002, o pintor Antonio Veronese fez duras críticas ao tradicional salão paulistano.


A idéia do JORNAL DA TARDE de chamar o pintor brasileiro para julgar a Bienal deveu-se ao fato de que, no mês passado, Veronese foi responsável por uma tremenda confusão no Whitney Museu de Nova York. Depois de pagar 10 dólares pelo ingresso à BIENAL WHITNEY 2002, e constatar que a mostra era uma sucessão de instalações sem nenhum sentido, Veronese voltou à portaria do museu e exigiu seu dinheiro de volta. Diante a determinação de Veronese e da confusão instalada, a  direção do museu nova-yorkino ameaçou chamar a polícia mas Veronese, ele mesmo, saiu e voltou com um policial. Veronese pediu ao oficial de polícia que o acompanhasse até o segundo andar da exposição onde, em uma das salas, acompanhado de dezenas de pessoas que testemunhavam a cena, Veronese retirou uma das suas botas que calçava e a "anexou" a uma das "instalações" da mostra.

- Veja, disse ao guarda,  minha bota incorpora-se automaticamente à exposição: isso não é arte!!

Pessoas que assistiam à cena começaram a aplaudir e apoiar o protesto, e armou-se uma pequena rebelião dentro do museu. O gerente do Whitney então, pressionado com a situação, concordou em devolver os 10 dólares a Veronese.

O acontecimento, inédito em um museu nova yorquino, chamou a atenção do jornal New York Times que, numa matéria dois dias depois, criticou duramente a Whitney Bienal, dizendo que” Antonio Veronese oxigena o debate da arte contemporânea.

Quando voltou ao Brasil, no mês seguinte, convidado pelo Jornal da Tarde para analisar desta vez a Bienal paulistana, Veronese foi ainda mais contundente, chamando a mostra, na edição do jornal do dia 13 de abril de 2002, de "...um grande engodo!

- Isso é tão grave quanto a interferência nazista na criação artística, pois cria conceitos de grande leviandade”, afirmou Veronese.

 Antonio Veronese - Vieux Colombier-Paris 2012

 
Segue a transcrição da matéria do Jornal da Tarde de 13 de abril de 2002


Essa bienal é um engodo, diz Veronese Artista brasileiro que exigiu o dinheiro de volta na Bienal 2002 do Museu Whitney em Nova York, foi à 25° Bienal de SP a convite do JT e analisou o que vale e o que não vale o ingresso. André Nigri-Jornal da Tarde

 

 

“Há mais emoção e história em uma única aquarela de Egon Schiele (1880-1918) do que em todo o pavilhão da Bienal paulistana". A frase de Antonio Veronese pode dar a entender que seu autor, um artista brasileiro que transita entre os Estados Unidos e a Europa, é um outsider ressentido com os colegas que expõem na maior mostra de arte contemporânea da América Latina. No entanto Veronese tem quadros seus pendurados nas Nações Unidas (Painel Save the Children) , na FAO em Roma ( Painel Famine), no UNICEF ( JUST KIDS), no Congresso Nacional ( Painel Tensão no Campo), na Universidade de Genebra, etc… Além disso, Veronese expõe e vende nos Estados Unidos e na Europa, e é um velho militante de causas sociais no Rio de Janeiro- cidade onde fica quando visita o Brasil.

Ao comparar a obra de Egon Schiele às instalações e performances dos 190 artistas de 70 países abrigados na 25°Bienal de São Paulo, aberta até junho, Veronese coloca em discussão o que se faz e o que se classifica de arte hoje e para que ela serve. “Quase tudo que está aí não vale quase nada... É uma infantilidade preencher esse espaço com obras que são um engodo” disse Veronese na manhã de ontem, depois de visitar o Pavilhão do Ibirapuera a convite do Jornal da Tarde.

Ao contrário do que aconteceu no mês passado no Whitney Museu de Nova York, não foi preciso chamar a polícia para esfriar os ânimos de Veronese desta vez, mas sua reação foi contundente da mesma forma. “A maioria do que vi no Whitney e que vejo aqui é resultado de uma idéia imediatista e simplória. Esses artistas são filhos espúrios de Duchamp” disse.

Consciente de que está comprando uma briga feia, Veronese não poupa nem os curadores de suas críticas: “São eles os maiores responsáveis por esse lixo. Não há mais curadoria decente na Bienal. E digo isso sabendo que muita gente gostaria de dizer o mesmo, mas não o faz”.

Ao ser confrontado com algumas das obras da Bienal paulistana, Veronese foi categórico. Chamou a instalação de José Damasceno de leviana, e ao aproximar-se da obra do gaúcho Daniel Acosta, intitulada “Estação Avançada com Paisagem Portátil” comentou: “Se nós mudarmos o nome disso não faz a menor diferença. Em relação ao trabalho do carioca Chelpa Ferro , um automóvel que foi destruído em uma performance na abertura de Bienal, disse, “Acho um absurdo que uma bobagem dessas ocupe espaço precioso numa bienal. Deveria estar num ferro velho”.

Qual seria a saída? Para Veronese, as instalações vão se esgotar por si mesmas. "Não se pode confundir decadência com vanguarda. Acreditar que tudo já foi feito e que temos que montar essas bobagens é encenar a nossa própria decadência, diz o autor do painel Famine (FAO-Roma) e de Tensão no Campo ( instalado no Museu da Câmara Federal, no Congresso Nacional).

 


Entrevista de Antonio Veronese depois das críticas às bienais Whitney e São Paulo.

PerguntaQuando você critica as bienais do Whitney e de São Paulo, não está negando aos artistas conceituais o direito de expor seus trabalhos? Isso é democrático?

Antonio Veronese Eu não nego a ninguém o direito de exibir. Nem teria cabimento isto. Acho apenas que essas instalações deveriam estar num parque de diversões e não em museus. São objetos para o divertimento e a interação, da mesma forma que o boliche ou um stand de tiro ao alvo. Mas isso, absolutamente, não tem nada a ver com arte, ainda que pareça revolucionário afirmar o contrário.


Pergunta-  O que gerou o teu protesto no Whitney?


Veronese- Foi uma reação natural de quem se sentiu ludibriado pagando 10 dólares para ter acesso a um amontoado de “facilidades”. Os “autores” disso são conscientes da farsa e riem de nós. O que fazem é uma forma de terrorismo estético, uma tentativa desvalorizar todo o conhecimento acumulado. Eles sabem que o que fazem não têm nenhum valor, mas contam com a elasticidade moral de curadores simplórios, e com a ignorância endêmica da crítica.



Pergunta-Você chama a esses artistas de filhos-espúrios-de-Duchamp. Por quê?
VeroneseArte é o resultado de duas experiências: uma histórica e outra pessoal. A primeira significa conhecer a arte que o antecedeu, senão vai ter que reinventar a roda a cada vez. Mas precisa também da segunda experiência, a pessoal, fruto do trabalho contínuo, do lento avançar naquilo a que se dedica. Cézanne aos 64 anos já havia parido o modernismo, mas reclamava que ainda não havia conseguido ir até o fim na sua busca. O caminho é longo e exige paciência e dedicação.

Esse pessoal das instalações não é burro não, conhece a História, mas tenta dar uma rasteira na segunda exigência, a da experiência pessoal. Socorre-se para isso de conceitos que serviram em situações especificas mas que, no caso deles, não passa de malandragem. O urinol virado por Duchanp é conseqüência de uma busca pessoal, num contexto particular e específico. Mas defender que o urinol possa ser manipulado indefinitivamente é encenar a nossa própria decadência. Por isso digo que os conceitualistas são filhos espúrios de Duchamp. Propõem mediocridade profanadora disfarçada de vanguarda!


Pergunta- Que diferença existe entre essa tua crítica e a que sofreram os impressionistas no século XIX?
VeroneseA Arte é oficio do Homem, interferência do Homem; ela não é espontânea na natureza! É produto exclusivo da interferência humana e, como tal,  não pode ser supérflua ou presunçosa. Victor Hugo dizia que a obra de arte é uma variedade do milagre e, para Malraux, "os artistas não são copistas de Deus mas seus rivais!"
A "arte" conceitual pretende socializar o direito de produzir arte, antes restrito, como seria natural, aos artistas! Por isso o que produz é facilmente copiável, diferentemente de um retrado de Rembrandt ou de uma mesa com maçãs de Cezanne. Comparar minha crítica com as que sofreram o impressionismo e o modernismo é um exagero. Uma outra vez eu "incorporei” minha bota de couro a uma instalação do Tunga no Whitney Museum do Soho em Nova York. Só fui recuperá-la no dia seguinte, e ela estava ainda lá, no mesmo lugar em que a deixei. Ninguém se dera conta de que, por 24 horas, eu havia me tornado co-autor da instalação conceitual de Tunga. Isso seria impossível com uma tela de Bacon, uma escultura de Maillol, ou mesmo com o Circo de Calder. A crítica foi,  muitas vezes na História, preconceituosa e totalitária. Mas questionar meu direito de exercê-la agora é também uma forma de totalitarismo. Para mim há mais humanidade em uma só aquarela de Egon Shiele do que em toda a Bienal de São Paulo reunida.

A Arte precisa provocar o espanto, mas só os idiotas espantam-se com o ordinário.

 

 

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Veja mais em: www.antonioveronese.unblog.fr

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